Ninguém cancela o churrasco de outubro por causa da previsão do tempo de junho. Todo mundo sabe que previsão de quatro meses não acerta chuva. Mas chega a temporada de pesquisa eleitoral e o país inteiro esquece a regra: candidato comemora, adversário se desespera, grupo de WhatsApp vira plantão meteorológico.
Junho trouxe a primeira fornada do ano. A Vox Brasil, com 2.100 entrevistados, mostra Lula com 42,1% e Flávio Bolsonaro com 33,6%, Caiado com 6,9%. O Real Time Big Data, segundo o Poder360, registrou 45% a 40%. E contra Caiado e Zema o cenário aperta pra empate técnico.
A manchete olha pro topo e para por aí. Quem trabalha com eleição olha pra outro lugar: a fila atrás do líder. Quando o mesmo eleitorado dá nove pontos de vantagem num cenário e empate técnico em outro, a informação valiosa não é quem está na frente. É que existe um voto enorme, solto, não fidelizado, esperando alguém ir buscar. A vaga do campo conservador e liberal segue aberta, com três perfis diferentes disputando o mesmo eleitor.
E tem o que a pesquisa de junho nem tenta medir. Quatro meses antes da convenção, ela não prevê resultado: fotografa reconhecimento de nome. Candidato conhecido pontua, candidato em construção não aparece. Em 2022, deputados se elegeram com votação que nenhuma pesquisa de junho enxergou. A previsão do tempo não viu a frente fria que se formou em setembro.
E a eleição que decide a vida de quem lê este texto, a de deputado, acontece noutra escala ainda: território, nome de bairro, rejeição de vizinhança. Pesquisa presidencial é clima. Clima importa. Mas ninguém colhe voto no clima, colhe no chão.
Então use o número de junho pro que ele serve: entender a maré do seu campo. E antes de comemorar ou sofrer com a próxima manchete, três perguntas de sempre: quem pagou, quando foi a campo, qual a margem? Sem essas respostas, aquilo não é dado. É previsão do tempo de quatro meses. Você cancelaria seu churrasco por ela?