Esta semana, numa cidadezinha de águas na França, aconteceu uma cena que há dez anos seria ficção. À mesma mesa sentaram os presidentes das sete maiores economias do planeta e os donos das máquinas de inteligência artificial. Trump de um lado. O pessoal do ChatGPT, do Claude e do Google do outro. Chefes de Estado e engenheiros almoçando juntos para combinar as regras do brinquedo novo. Leia de novo. Quem manda no mundo precisou chamar quem manda na máquina para decidir como o mundo vai funcionar.

Eu começo por aí porque, enquanto o presidente do mundo almoça com o dono do software, tem assessor de campanha aqui no Brasil tratando a mesma tecnologia como enfeite. É esse abismo que vai decidir muita eleição em 2026.

Onze da noite, um gabinete qualquer. Sobrou um assessor, a luz da tela e um café que esfriou faz tempo. Ele cola o plano inteiro da campanha numa janela de conversa e digita seis palavras. “Deixa isso bom. Faz a gente ganhar.” Aperta enter. A resposta vem em nove segundos. Bonita, organizada, com até uma frase de efeito no fim. Do outro lado da cidade, no gabinete do adversário, outro assessor faz a mesma coisa. Mesma pressa, mesmo café frio, mesma janela. E recebe, nos mesmos nove segundos, quase a mesma resposta.

Aqui mora o problema que quase ninguém quer encarar. A máquina não entrega estratégia. Entrega a média. Ela junta tudo que já foi escrito sobre campanha, tudo que todo mundo repete, e devolve o meio do caminho com capa nova. O texto sai redondo, seguro, igual ao do vizinho. E o igual, na urna, perde. O eleitor não decide voto no que parece com o resto. Decide no que destoa.

Tem uma lógica simples por trás disso. Quando uma coisa fica abundante, vale menos. Hoje todo gabinete tem a mesma máquina, de graça, na palma da mão. Logo, a resposta dela vale cada vez menos. O que ficou raro foi outra coisa: gente que sabe o que perguntar. O assessor que cola o plano e pede “deixa isso bom” não tem plano. Tem pressa. E pressa a máquina cumpre rápido. Inclusive a pressa de afundar.

Não me entenda mal. Eu uso essas ferramentas todo dia, e elas são boas. Boa ferramenta na mão de quem tem rumo faz o trabalho de uma semana caber numa tarde. A mesma ferramenta na mão de quem não tem rumo só acelera a confusão. O martelo não levanta a casa. Ele obedece o pedreiro. Se o pedreiro não sabe onde fica a parede, o martelo ajuda a errar mais rápido.

Essa eleição vai separar dois candidatos. O que acha que comprou inteligência porque abriu uma janela de conversa. E o que chega na máquina já sabendo a pergunta, porque pisou no território, ouviu o eleitor e entendeu a dor da rua antes de ligar o computador. O primeiro tem o texto pronto em nove segundos. O segundo tem o voto em outubro.

Outubro não espera. O registro fecha em agosto. Quem só vai descobrir a própria estratégia na hora de colar o plano na tela já entrou atrasado, e nem percebeu.

A máquina vai te dar uma resposta. Ela dá a mesma pra todo mundo, ao mesmo tempo. A pergunta continua sendo sua. E é a pergunta que ganha a eleição. Nunca foi a resposta.