Tem uma palavra que muda tudo quando você presta atenção nela: “dar”. O governo “dá” saúde. “Dá” auxílio. “Dá” um benefício. A palavra é generosa, e é mentirosa. Porque o Estado não tem dinheiro próprio. Tudo que ele tem, ele tirou de alguém antes. Quando ele “dá”, está, na melhor das hipóteses, te devolvendo o que já era seu. Picado, atrasado, e ainda cobrando gratidão pelo troco.

Pensa no caminho do seu dinheiro. Você trabalha, recebe, e antes de tocar no que ganhou, uma parte já foi embora em imposto. Depois, em cada compra, mais um pedaço. O dinheiro sai do seu bolso, dá uma volta enorme por uma máquina cara e lenta, perde gordura no caminho, e uma fração volta na forma de um serviço que te dizem ser um presente. Não é presente. É devolução, com desconto pesado pela viagem.

E aqui mora a inversão que confunde quase todo mundo. O Estado se apresenta como quem cuida, como a fonte de onde as coisas boas brotam. Mas ele não é fonte de nada. É intermediário. Não cria riqueza, transporta a sua, cobrando caro pelo transporte. Tratar o governo como benfeitor é agradecer ao carteiro pelo dinheiro que veio dentro do envelope. O dinheiro nunca foi dele.

Por que isso importa numa campanha? Porque muda a pergunta que o eleitor faz. Quem acredita que o Estado “dá” pede mais. Quem entende que o Estado “devolve” pergunta outra coisa: por que volta tão pouco, tão tarde, e tão ruim? Por que tanto se perde no caminho? Essa segunda pergunta é a que assusta quem vive da máquina, e a que liberta quem paga por ela.

Não é ser contra ter serviço público. É parar de chamar de doação o que é devolução. A gratidão que cobram de você devia ser cobrança que você faz: cadê o resto, e por que sumiu tanto no meio?

Então, da próxima vez que disserem que o governo “deu” alguma coisa, corrige na sua cabeça: ele devolveu, picado, o que já era seu. E pergunta onde foi parar a diferença. Essa pergunta vale mais que mil promessas.