Tem uma coisa estranha acontecendo com os textos por aí. Estão todos ficando bons. E iguais. Abre o post de um candidato, o de outro, o da padaria, o da clínica. Todos bem escritos, organizados, sem erro de vírgula. E nenhum gruda. Você lê, concorda, esquece. Lê o próximo, concorda de novo, esquece de novo.
A explicação é simples. Muita gente passou a escrever apertando o mesmo botão. Cola o assunto numa janela de conversa, pede um texto, e a máquina entrega na hora. O resultado é competente. É redondo. E é exatamente o problema. Porque a máquina não inventa o seu jeito. Ela faz a média de todos os jeitos que já existiram. Te devolve o ponto médio, polido, sem aresta. E o ponto médio é, por definição, o lugar onde ninguém se destaca.
Na vida, redondo é elogio. Na disputa por atenção, redondo é invisível. O que faz alguém parar de rolar a tela não é o texto correto. É a frase torta, a imagem que ninguém esperava, o jeito de dizer que só aquela pessoa tem. A máquina apaga justamente isso. Ela lixa a aresta que faria você ser lembrado.
Não é caso de largar a ferramenta. Ela é útil, rápida, poupa trabalho. O erro é deixar ela escrever no seu lugar. Boa ferramenta organiza o que você já pensou. Ruim é quando ela pensa por você, porque aí o que sai não tem dono. E texto sem dono não cria vínculo. Vínculo é com gente, com voz, com um jeito reconhecível.
Quem vai se destacar nos próximos anos não é quem usa mais a máquina. É quem usa e ainda assim soa como gente. Que deixa o erro charmoso, a palavra do interior, a comparação que só ele faria. Que trata a ferramenta como rascunho, nunca como voz final.
Porque chega uma hora em que todo mundo tem o mesmo gênio na garrafa, dando a mesma resposta. E quando todos falam igual, o raro vira quem ainda fala diferente.
Então, antes de mandar aquele texto perfeitinho que a máquina te deu, pergunta uma coisa só: alguém vai saber que foi você que escreveu? Se a resposta for não, você está pagando para desaparecer.