Entra num comitê de campanha numa terça à noite. Tem gente para todo lado. Telefone tocando, café passando, mesa cheia de santinho, grupo no berro decidindo a arte do dia. Parece uma máquina a todo vapor. Sensação de que a campanha está voando.

Agora sai do comitê e anda dois quarteirões. A rua não sabe que existe campanha ali. Ninguém comenta o nome. Ninguém viu o candidato. O barulho que parecia o mundo inteiro, do lado de fora, não chega na esquina.

Esse descompasso engana muita gente boa. O comitê cheio dá uma sensação deliciosa de progresso. Todo mundo ocupado, todo mundo suado, todo mundo produzindo. Só que movimento não é avanço. Dá para correr a noite inteira numa esteira e acordar no mesmo lugar.

A campanha vibra por dentro e não move por fora quando a energia toda é gasta para dentro. Reunião que gera reunião. Arte que agrada o candidato e o cunhado dele. Discussão sobre a cor do banner enquanto ninguém mapeou uma quadra sequer. É trabalho de verdade, cansa de verdade, e não vira voto.

A conta que importa não é quantas pessoas estão no comitê. É quantas pessoas, lá fora, mudaram de ideia esta semana por causa do que saiu dali. Se a resposta for nenhuma, o comitê não é uma campanha. É um clube.

Campanha que avança gasta a energia para fora. Manda gente para a porta, não para a mesa. Troca a reunião pela visita. Mede o dia pela rua andada, pela conversa real, pelo apoiador novo que ninguém conhecia ontem. O comitê, nessa lógica, é só o ponto de apoio. O jogo é na calçada.

Quem ama o próprio comitê perde a eleição com a casa cheia. Quem ama a rua ganha com o comitê quase vazio, porque todo mundo que importava está lá fora, trabalhando onde o voto mora.

Então, antes de gostar do barulho da sua campanha, abre a porta e anda dois quarteirões. Se a rua não te conhece, o barulho era só seu.