Tem uma cena que se repete em todo bairro, e quase ninguém liga ela à economia. A pessoa entra na padaria, pede o pão de sempre, estende a nota de sempre, e leva menos pão. Não mudou o salário. Não mudou a fome. Mudou só o tamanho do que a mesma nota compra. E ela sai dali com uma certeza no corpo, sem precisar de gráfico: alguma coisa está errada.
Essa certeza chega muito antes do noticiário. Quando o jornal anuncia que a inflação subiu, a dona de casa já sabe há semanas. Ela sentiu na sacola, no botijão, na conta de luz. O número que o economista anuncia na quarta, ela viveu na carne na segunda anterior. A economia, para quem é pobre, não é teoria. É a sacola que encolhe.
E a raiz disso é mais simples do que parece, embora ninguém goste de dizer em voz alta. Quando o governo gasta mais do que arrecada, alguém paga a diferença. Quando a conta não fecha, a saída fácil é fabricar dinheiro que não existe. Só que dinheiro a mais, com a mesma quantidade de coisas para comprar, não enriquece ninguém. Só faz cada nota valer um pouco menos. E quem sente primeiro não é quem tem reserva. É quem vive do mês, gasta tudo, e não tem onde se proteger.
O rico se defende. Põe o dinheiro em algo que sobe junto. O pobre não tem essa porta. Ele segura a mesma nota vendo ela derreter na mão. Por isso a inflação é o imposto mais cruel que existe: ninguém votou nele, ninguém assinou, e mesmo assim ele tira do prato de quem tem menos.
Aqui mora uma lição de comunicação, não só de economia. Quem souber explicar isso na língua do bairro, sem palavra difícil, ganha uma conversa que o adversário nem começou. Não é discurso de doutor. É dizer, pelo alto: o governo imprime, e o pão encolhe. A pessoa entende na hora, porque ela já vive isso. Você só deu nome ao que ela sentia.
E quem dá nome à dor da pessoa vira a referência dela. Não porque prometeu o impossível, mas porque foi o único que falou a verdade que ela já sabia no corpo. Em ano de eleição, isso vale mais que mil santinhos.
Então, da próxima vez que falarem de economia em número, lembra da padaria. O voto não está no índice. Está na sacola que voltou pra casa mais leve.