Tem uma cena que se repete em toda campanha: o candidato apaixonado pela arte. A cor do santinho, a fonte do nome, a foto retocada, o slogan rebuscado. Gasta-se uma fortuna pra deixar tudo bonito. E gasta-se um tostão, ou nada, na única coisa que decide: a história que aquilo conta. Aí vem a surpresa cruel. Santinho bem impresso não cobre erro de narrativa.
Narrativa é o enredo da sua candidatura. Quem você é, por que está aqui, qual problema você resolve, por que justo você. Isso não está na arte. Está na história. E se a história não fecha, se ninguém entende por que você existe na disputa, nenhum papel couché no mundo salva. A pessoa olha o santinho lindo, não sente nada, e joga fora. Beleza sem enredo é embrulho vazio.
O erro de narrativa é silencioso, e por isso mortal. O candidato não percebe, porque a arte está linda e todo mundo elogia a arte. Ninguém elogia o enredo, porque ninguém entendeu o enredo. A campanha parece profissional por fora e não diz nada por dentro. É como um filme com efeito caro e roteiro furado: bonito de ver, impossível de lembrar.
E o pior: arte conserta em um dia, narrativa não. Você troca a cor do banner numa tarde. Mas construir o porquê de uma candidatura, amarrar a história à dor real do eleitor, leva tempo e cabeça, não impressora. Quem deixa pra resolver o enredo depois descobre que gastou todo o dinheiro embelezando uma história que não existia.
A ordem certa é o contrário da que quase todo mundo segue. Primeiro fecha a história: o que você significa, numa frase que o eleitor repete. Depois, só depois, veste essa história de arte bonita. Aí o santinho vira a embalagem de algo que valia a pena, não a maquiagem de um vazio.
Então, antes de aprovar a próxima arte, responde sem enrolar: que história ela está contando? Se você gaguejar, guarda o dinheiro da gráfica. O problema nunca foi a cor. Foi o enredo.